Homossexualismo na família
Você já pensou na possibilidade
de seu filho(a) ser homossexual? E, se for, já pensou qual será sua reação? Por
mais que pareça que vivemos novos tempos, ainda há muito preconceito e
dificuldade de aceitação do homossexualismo, principalmente da parte dos pais,
que, em um primeiro momento, se sentem decepcionados e traídos em suas
expectativas com relação ao filho. Uma situação que causa sofrimento a eles e
também ao jovem que decide assumir sua orientação sexual.
Quem diz isso é a professora
universitária Edith Modesto, fundadora do Grupo de Pais de Homossexuais (GPH),
a primeira ONG brasileira com o objetivo de acolher pais que têm filhos
homossexuais. "O preconceito sociocultural vem sendo, aos poucos, desconstruído,
mas se mantém muito forte na escola e, em especial, no ambiente doméstico, que
continua praticamente igual à época em que inicie esse trabalho", conta
Edith, que também é escritora, doutora em Semiótica francesa pela USP e
terapeuta especialista em diversidade sexual.
O GPH nasceu em 1997 a partir de
uma experiência pessoal de Edith, quando descobriu que o caçula de seus sete
filhos era gay. "Tenho mais cinco filhos homens e todos sempre foram
sossegados, por isso nunca desconfiei, mas com o tempo comecei a estranhar ele
nunca ter tido namorada. Quando tinha 19 anos perguntei, esperando uma resposta
negativa, se ele não gostava de mulher. Só que ele me disse que era isso mesmo.
Fiquei sem chão, pasma. Eu sabia que existiam gays, mas muito longe de mim, não
pensava nisso. Da parte do meu filho, ele ficou muito bravo comigo, pois existe
o mito do amor incondicional de mãe", conta Edith.
A princípio, a professora admite
que o interesse individual foi o que a moveu a compartilhar seus sentimentos
com outros pais, que viviam a mesma situação. "Eu queria compreender
melhor meu filho, o mesmo motivo pelo qual eu escrevi um livro em que
entrevistei 89 homossexuais. Tudo foi feito para que eu conseguisse aceitar o
meu filho. Pude assim perceber que essa uma condição natural e espontânea do
ser humano. Mas foi difícil, demorou bastante para eu entender..." Hoje,
Edith Modesto recebe via e-mail ou por telefone de 2 a 4 pedidos diários de
socorro de mães e pais que querem chegar à mesma compreensão. "Todo mundo
fala de forma natural, desde que não ocorra dentro de casa", reconhece.
O árduo caminho de aceitar a
diferença
A professora conta que muitos
pais chegam revoltados, infelizes, bravos. "Falam um monte de ofensas, mas
é tudo da boca para fora. A pessoa desesperada diz barbaridades, para se sentir
melhor, o problema é que falam as barbaridades para os próprios filhos e
filhas. Por isso que o GPH é bom, porque eles vêm falar barbaridades
aqui", diz Edith, que conta com a ajuda do marido nesse trabalho de ajuda
mútua. "A gente pensa que os pais têm o dever de dar apoio ao jovem, mas
nunca se deve desprezar o sofrimento desses pais. É um paradoxo terrível.
Aquele que deveria dar amor, maltrata. Mas esses pais não estão fazendo isso
por maldade, a maioria acha que está educando. Então, temos de falar com esses
pais com muita delicadeza. Acolher, significando, eu entendo, já é começar com
o pé direito".
Segundo ela, há fases a serem
vencidas. "Primeiro, é a do estranhamento. Quanto tempo vai durar depende
da família. Depois, vem a fase do luto, o filho que ela pensava ter é outro.
Finalmente, chega a redenção interna, com a morte simbólica do filho hetero. É
difícil, mas o amor sempre vence. Das pessoas que entraram no GPH nós não temos
casos de rejeição".
Jovens também sofrem.
O processo de autoaceitação do
filho é tão sofrido ou mais do que para os pais, diz a terapeuta. "Eles
têm medo de perder o amor dos pais. Geralmente, tentam compensar os pais sendo
ótimos alunos, ótimos filhos, mesmo porque o gay e muito mais sensível e
afetuoso do que o hetero".
Ela conta que muitos jovens
procuram a ONG por se sentirem discriminados em casa, na escola, pelos amigos e
na sociedade em geral. "Eles querem contar para a mãe e não sabem como
serão aceitos". Para eles, Edith tem um recado: "Eu digo que eles têm
possibilidade de serem felizes como todo mundo, mas que precisam fazer um
esforço maior do que as outras pessoas, porque, para ser gay, tem de ser muito
macho. O segredo é o respeito pela dificuldade do outro. É uma injustiça, uma
inversão, pedir para um adolescente ajudar o pai e a mãe. Mas, infelizmente, a
gente tem de pedir".
Preconceito existe. E muito!
A fundadora do GPH não tem
dúvidas: "Quem afirma que não tem, vai morrer preconceituoso. Se você
parte do principio de que tem preconceito, você está se dando uma chance de
ficar com menos preconceito e tornar-se uma pessoa melhor. Se você diz que não
tem, acabou. Não sai mais do lugar".
Edith acredita que os
estereótipos atrapalham a aceitação não só da homossexualidade como de outras
diferenças. "A mídia usa todas as diferenças para fazer comédia, acontece
com o gago, o anão, o alcoólatra, o gay. É um comportamento pouco humano, um
desrespeito à diversidade e o mundo é feito delas".
Ela também não aprova as atitudes
exageradas de algumas pessoas, mas tenta entender. "A Parada Gay, por
exemplo, é uma maneira de mostrar que o gay existe, mas, assim como no
carnaval, há muita gente que abusa. Atitudes escandalosas é problema de
autoaceitação. Os gays sofrem muita discriminação, uns constroem um muro e se
escondem, outros jogam as pedras de volta, e há aqueles que levantam um castelo
e vão morar felizes. A pessoa aprende a amar sendo amada, por isso o
acolhimento da família é fundamental", finaliza.
Atendimento
01/11/2012 - Edith Modesto- Rua Álvaro Anes, 65, Pinheiros, São Paulo,
tel (11) 38125717. Para saber mais acesse o site www.gph.org.br.
Autora de livros sobre diversidade sexual - entre eles "Vidas em
arco-íris - Depoimentos sobre a homossexualidade" e "Entre mulheres -
Depoimentos homoafetivos", Edith Modesto foi homenageada em 2011 pela
Parada LGBT de São Paulo e recebeu o Prêmio da Comissão de Direitos Humanos da
Assembleia Legislativa. Além do GPH, foi criado o Projeto Purpurina, que
trabalha a elevação da autoestima do jovem GLBTT e a aproximação dele com seus
familiares.
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